Gioconda:
Não brinca. Já está tão difícil!
João:
Mas é importante mantermos o bom humor. Sem ele é que as coisas vão ficar realmente difíceis.
Gioconda:
Bom humor... Só essa que me faltava.
Mô:
Gostaria de lembrar a vocês que talvez nosso futuro não seja aquela coisa maravilhosa que tanto sonhamos. Será que vocês não percebem que, em momentos passados aliáveis à nossa vontade, ficamos bem mais velhos? Velhos na cabeça, sofridos e usados. E até quando teremos forças para deixar essa condição imposta, reprimir e diluir todo nosso realismo espontâneo? É um fato que perdemos. Colegas nossos já foram mortos ou confinados a nunca mais. Meu irmão foi morto pela polícia com um tiro nas costas. E daí nada podemos fazer. Não temos nem forças de nosso lado. Estamos simplesmente sozinhos. Como dizia Guilherme, a única chance que temos é, talvez, esquecer e seguir em frente, fazendo desse passo uma condição real de direitos e deveres, dando, assim, condições para que em um futuro bem próximo, de uma forma ou de outra, esse país tenha espaço, espaço para os verdadeiros donos dessa terra sem que nenhum brasileiro morra de fome e outras. Que o povo brasileiro não seja mais, nunca mais, trucidado em sua vida e em seus direitos de pensar. É muito triste tudo isso.
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No entanto, pode ser também uma força para mudar tudo isso que está sendo necessário ser mudado. Olhem para dentro de vocês. Temos tantas coisas para fazer, e ainda não é tempo de morrer. Não podemos deixar que o vento, em sua plenitude, acabe para sempre com esse amor pela vida, essa loucura infinita de tentar ser o mais qualificado em conhecimentos e poder ter um sonho. Não temos muito a perder. Temos, sim, é muito a dar. E não adianta eles tentarem parar essa maratona do saber. É de muito longe que se tem o poder do pensamento. A própria história do mundo mostra que de um fato acontece às constantes lutas pela verdade. Ninguém, em seu real saber, pode dizer o que vai acontecer com as nossas cabeças, mas uma coisa fica em completa vitalidade: o sonho, o ato de ... E nós estamos precisando desse orgasmo. A hora é essa. Existe uma vontade maravilhosa de paz. Essa agonia tem que ter fim.
(vai para frente do palco e fica deitada de forma a observar o público).
Gioconda:
Você está coberta de razões. E nenhum de nós, olhem bem, nenhum de nós tem tanto a sentir como você. Porém tem um pormenor:não podemos ficar presos às questões delirantes de nosso tempo. Eu, por mim, vou à luta. Sabem... Nada morreu. O único problema é que, de agora em diante, temos que seguir caminhos diferentes e talvez até bem distintos.
Muganga:
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